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A cultura do café em Lisboa: história, ambiente e tendências modernas
Fotografia de André Lergier no Unsplash
Em Lisboa, o café é infraestrutura. Segura a manhã, serve de pretexto para metade das conversas da cidade e custa mais ou menos o mesmo que o elétrico. A seguir: de onde veio isto, que salas antigas sobreviveram e o que a última década de café de especialidade mudou — e não mudou.
Das raízes coloniais à obsessão nacional
O café chegou a Portugal no século XVI, com as rotas comerciais. Começou por ser um luxo e, no século XVIII, já era coisa comum; Lisboa encheu-se de botequins — os primeiros cafés, onde se discutia política e literatura pelo menos tanto quanto se bebia.
Os grãos vinham das colónias: Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde. Foram os portugueses que levaram os cafeeiros para o Brasil no século XVIII — o país que hoje produz mais café do que qualquer outro começou como uma experiência portuguesa.
Os grãos vinham das colónias: Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde. Foram os portugueses que levaram os cafeeiros para o Brasil no século XVIII — o país que hoje produz mais café do que qualquer outro começou como uma experiência portuguesa.
Cafés clássicos: a história viva de Lisboa

Algumas das salas antigas continuam abertas: tetos altos, espelhos, mesas de mármore, empregados que lá estão há mais tempo do que a mobília.
Em todos eles, o que se pede é uma bica — a palavra lisboeta para o espresso — e continua a custar moedas, não notas.
- Martinho da Arcada (1782): o café mais antigo da cidade, sob as arcadas da Praça do Comércio. Fernando Pessoa tinha aqui a sua mesa; o interior de madeira nunca mais precisou de melhorias.
- Café A Brasileira (1905): no Chiado, em tempos a sala de encontro dos escritores e pintores da cidade. O Pessoa de bronze lá fora é para os turistas; o balcão lá dentro continua a funcionar como um balcão.
- Café Nicola (1787): no Rossio, o centro da vida de café lisboeta nos anos 30.
- Café Chave d’Ouro (1919): no seu tempo, restaurante, salão de chá, tabacaria, barbearia e sala de bilhar num só edifício — a rede social da sua época.
Em todos eles, o que se pede é uma bica — a palavra lisboeta para o espresso — e continua a custar moedas, não notas.
A revolução da terceira vaga do café

Na última década, a terceira vaga chegou a Lisboa: atenção à qualidade do grão, origem rastreável, métodos de preparação manual. Uma cidade que vivia de torras comerciais escuras — Sical, Buondi — atrai agora baristas de toda a Europa.
A evolução da cena do café em Lisboa
Perspetiva histórica: de meia dúzia a centenas
Cafés tradicionais (séculos XVIII–XX)
Antes de 2015, a cena do café em Lisboa girava em torno dos cafés tradicionais e das pastelarias, muitas delas com mais de um século de história:
No total, Lisboa tinha cerca de 200–300 cafés tradicionais, dos grandes espaços históricos aos acolhedores botequins de bairro.
O boom do café de especialidade (2015–2025)
A cena do café de especialidade arrancou por volta de 2015, com pioneiros como:
Desde então, o número não parou de crescer — o Nina Brunch Cafe acompanha a contagem:
A evolução da cena do café em Lisboa
Perspetiva histórica: de meia dúzia a centenas
Cafés tradicionais (séculos XVIII–XX)
Antes de 2015, a cena do café em Lisboa girava em torno dos cafés tradicionais e das pastelarias, muitas delas com mais de um século de história:
- Martinho da Arcada (1782)
- Café Nicola (1787)
- Confeitaria Nacional (1829)
- Pastelaria Benard (1868)
- A Brasileira (1905)
- Versailles (1922)
No total, Lisboa tinha cerca de 200–300 cafés tradicionais, dos grandes espaços históricos aos acolhedores botequins de bairro.
O boom do café de especialidade (2015–2025)
A cena do café de especialidade arrancou por volta de 2015, com pioneiros como:
- Copenhagen Coffee Lab (2015): a primeira cadeia internacional de especialidade, instalada no Príncipe Real.
- Fábrica Coffee Roasters (2015–2016): um dos primeiros torrefadores locais de café de especialidade de Lisboa, inspirado na cena de café da Alemanha.
Desde então, o número não parou de crescer — o Nina Brunch Cafe acompanha a contagem:

Momentos-chave:
Dinâmica do mercado
O mercado do café em Portugal:
Os cafés de especialidade vão surgindo em bairros na moda como o Príncipe Real, Santos, o Chiado, Alcântara e o Parque das Nações.
- Março de 2019: o primeiro Lisbon Coffee Festival, que pôs o café de especialidade em destaque.
- 2020: a COVID-19 fez crescer o consumo de café em casa em 18% (vendas off-trade).
- 2023: um salto de 25% nos pedidos de brunch nos cafés, sinal do crescimento da cultura de café.
- 2024: as importações portuguesas de café verde subiram 22,7%, para 52 670 toneladas, sinal da procura crescente.
Dinâmica do mercado
O mercado do café em Portugal:
- Consumo total: 59 000 toneladas em 2023, com previsão de chegar às 61 000 toneladas em 2028 (CAGR de 0,6%).
- Receita do mercado: 2,91 mil milhões de euros em 2025 (568,73 milhões de euros do consumo em casa, 2,34 mil milhões do consumo fora de casa).
- Segmento de especialidade: o mercado europeu de café de especialidade cresce 11,9% ao ano (2023–2033). Em 2023, a cena de cafés de Lisboa impulsionou o turismo em 20%.
Os cafés de especialidade vão surgindo em bairros na moda como o Príncipe Real, Santos, o Chiado, Alcântara e o Parque das Nações.
O café de terceira vaga em Lisboa

O que a terceira vaga mudou foram as perguntas que se fazem à chávena: que quinta, que processo, que torra. Origens únicas da Etiópia, da Colômbia ou do Brasil, preparadas em V60, AeroPress ou como cold brew, sabem a fruta e a flores, não a queimado — uma bebida diferente do lote clássico da bica, não uma bebida melhor.
Novos protagonistas (2020–2025):
Novos protagonistas (2020–2025):
- Liberty: um café conhecido, com livraria incluída.
- Sense of Coffee e Sense of Coffee & Wine: o primeiro café de especialidade do Parque das Nações, a servir torrefadores de toda a Europa — o filtro da casa muda de duas em duas semanas.
- The Folks: uma cadeia de cafés em Lisboa que estabelece um novo padrão de qualidade.
- Copenhagen Coffee Lab: a primeira cadeia de café da nova vaga, ponto de encontro de expatriados de todo o mundo.
- Dear Breakfast: uma cadeia popular de cafés de pequeno-almoço e brunch em Lisboa, com café interessante e um design minimalista de inspiração escandinava
- Hello, Kristof: os apreciadores de café de especialidade encontram aqui não só uma bebida excelente, mas também um espaço inspirador para trabalhar ou descansar.
Estes cafés oferecem muitas vezes leites vegetais (como aveia ou amêndoa) e especiais de época, como cold brew com toques locais, de xarope de laranja a canela.
O que sobreviveu ao boom
Em 2015, Lisboa tinha dois ou três cafés de especialidade. Em 2025, a contagem passou dos oitenta e cinco — um salto de trinta vezes numa década, um dos mais rápidos da Europa. E, ainda assim, aquilo que faz do café de Lisboa o café de Lisboa não mudou: o espresso ao balcão continua a custar cerca de um euro, continua a demorar dois minutos, continua a vir com duas palavras trocadas por cima do balcão.
Achamos que esse ritual merece ser protegido do boom de que nós próprios fazemos parte. É por isso que o espresso no Sense of Coffee custa 1 € — mais ou menos o que nos custa fazê-lo, sem nada acrescentado por cima. Os cafés de especialidade costumam explicar porque é que o seu café custa mais. Nós preferimos explicar porque é que o nosso custa o mesmo que nos velhos balcões da esquina — e sabe diferente. Uma bica no Nicola, um V60 de Yirgacheffe etíope num bar de terceira vaga, um espresso no nosso balcão: três respostas à mesma pergunta, e na cidade há lugar para as três.
Achamos que esse ritual merece ser protegido do boom de que nós próprios fazemos parte. É por isso que o espresso no Sense of Coffee custa 1 € — mais ou menos o que nos custa fazê-lo, sem nada acrescentado por cima. Os cafés de especialidade costumam explicar porque é que o seu café custa mais. Nós preferimos explicar porque é que o nosso custa o mesmo que nos velhos balcões da esquina — e sabe diferente. Uma bica no Nicola, um V60 de Yirgacheffe etíope num bar de terceira vaga, um espresso no nosso balcão: três respostas à mesma pergunta, e na cidade há lugar para as três.
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